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Pessoa, processo, produto: por onde a empresa sangra

Um jeito de ler a crise de caixa pelo endereço — pessoa, processo ou produto — antes de escolher o remédio.

· 3 min de leitura · Carlos Alberto Xavier

Neste texto
  1. Uma crise, três endereços possíveis
  2. Pessoa — o decisor que não lê o próprio contrato
  3. Processo — a conferência que não existe
  4. Produto — a margem que não paga o capital
  5. Por que o endereço errado custa tempo
  6. Uma pergunta para separar os três

Uma crise, três endereços possíveis

Crise de caixa parece uma coisa só quando ela chega. No que observo, na origem ela nasce em um de três lugares — pessoa, processo ou produto — e o tratamento de cada um é diferente. Confundir o endereço é tratar a febre e manter a infecção circulando.

Pessoa — o decisor que não lê o próprio contrato

O primeiro endereço é o mais simples de descrever e o mais incômodo de admitir: ninguém, na empresa, sabe dizer de cabeça o custo efetivo consolidado da própria dívida. O gerente explica por telefone, o dono confirma por confiança, e a assinatura sai antes da leitura.

Não é falta de competência — quem dirige uma empresa lida com dezenas de decisões por semana. É ausência de dono do tema. Em empresa de porte médio, “conhecer cada operação de crédito” não precisa ser um cargo; precisa ser uma atribuição — de alguém com nome, que responde por saber.

Processo — a conferência que não existe

O segundo endereço vive na rotina, ou na falta dela: o que foi pactuado e o que foi cobrado nunca se encontram. Encargos, tarifas e taxas correm meses — às vezes anos — sem uma única conciliação entre a cédula e o extrato.

A correção aqui não exige estrutura nova, exige constância: uma rotina mensal de conciliação, contrato a contrato, comparando o que o documento diz com o que o extrato cobra. É controle interno básico. E, no que vejo pelo campo, é raro — porque compete, no calendário de qualquer gestor, com problemas que parecem mais urgentes.

Produto — a margem que não paga o capital

O terceiro endereço é o mais escondido dos três, porque pode vir disfarçado de sucesso: a linha de produto que mais vende é também a que consome mais capital de giro caro — e, quando alguém desconta o custo desse capital da margem daquela linha, o lucro contábil pode virar prejuízo econômico.

Relatório de margem bruta ou operacional não mostra isso: a margem líquida do custo de capital alocado a cada produto é uma conta que alguém precisa decidir fazer. O produto que não paga o próprio financiamento não é estratégico. É subsidiado por outra parte do negócio, silenciosamente.

Por que o endereço errado custa tempo

Tratar um problema de produto como se fosse de pessoa (trocando o responsável) resolve pouco quando a falha está na apuração de margem. Tratar um problema de processo como se fosse de produto (descontinuando uma linha) pode eliminar um negócio saudável cuja única falha era nunca ter sido conciliado. O diagnóstico errado não é neutro — ele consome tempo e caixa enquanto o problema real continua correndo.

Uma pergunta para separar os três

Um teste simples ajuda a localizar o endereço antes de agir: quando a dívida aperta, pergunte quem, na empresa, consegue explicar — com dados, não com impressão — o custo consolidado da dívida (pessoa), quando foi a última conciliação entre pactuado e cobrado (processo) e qual é a margem líquida do custo de capital de cada linha relevante (produto). A pergunta que não tem resposta imediata aponta o endereço.

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